Leitura de Junho de 2019:
No século V, Cassiano escreve acerca
do «sexto combate» ao «cansaço e tristeza no coração», dizendo
que «isto é o “demónio do meio-dia”, referido no Salmo Noventa», que «produz o desagrado do local onde estamos,
desdém e desprazo pelos outros homens e uma forma de apatia.»
A seção em questão ocorre nos Salmos
e seria traduzido literalmente da Vulgata:
«A sua verdade envolver-te-á como um escudo/Não temerás o terror da noite,/nem
o flagelo nem o demónio do meio-dia» - «ab
incursu, et daemonio meridiano».
Cassiano presume que «o terror da noite» se refere ao mal; a «seta que voa de dia», às carnificinas
feitas pelos seres humanos; «a peste que
alastra nas trevas», a espíritos malignos que vêm durante o sono; «o flagelo», à possessão; «o demónio do meio-dia», à melancolia,
aquilo que podemos ver claramente na fase mais iluminada do dia mas que no
entanto vem arrancar da nossa alma o amor de Deus.
Outros pecados podem corroer a noite,
mas este consome dia e noite. O que podemos dizer em favor de um homem
desprotegido do escudo da verdade de Deus? O castigo pode ser eficaz na
redenção de um caso tão desesperado: Cassiano defendia que um homem melancólico
pode desempenhar um trabalho manual, e todos os seus amigos devem afastar-se
dele e abandoná-lo.
Evárgio, utilizando a mesma frase,
dizia que o desânimo melancólico era um «demónio
do meio-dia» que atacava e tentava o ascético; considerava-o uma das oito
principais tentações a que devemos resistir na Terra.
Utilizei aquela expressão para título
deste livro porque descreve com grande exactidão o que experimentamos durante
uma depressão.
A imagem serve para conjurar o
terrível sentimento de invasão que acompanha as dificuldades do depressivo. Há
qualquer coisa de afrontoso na depressão.
A maioria dos demónios – a maioria das
formas de angústia – atua a coberto da noite; vê-los com clareza é derrota-los.
A depressão apresenta-se em plena luz
do Sol, e o facto de ser reconhecida não representa para ela um desafio.
Podemos saber todos os quês e porquês
e mesmo assim sofrer da mesma forma que sofremos quando somos dominados pela
ignorância. Praticamente não há nenhum outro estado mental de que se possa
dizer o mesmo.
Na época da Inquisição, no século
XIII, alguns depressivos eram multados ou aprisionados devido ao seu pecado.
Nesse período, Tomás de Aquino, cuja
teoria de corpo e alma colocava a alma hierarquicamente acima do corpo, concluía
que a alma não podia estar sujeita às doenças do corpo.
Mas atendendo a que alma está abaixo
do divino, estava sujeita à intervenção de Deus ou do Demónio. Nesse contexto,
uma doença tinha de ser do corpo ou da
alma, e a melancolia estava atribuída a alma.
A Igreja medieval definia nove
pecados mortais (foram depois reduzidos para sete). Entre eles estava a acedia
(traduzido como «preguiça» no século XIII).
O termo parece ter sido usado de
forma tão vasta quanto hoje em dia o termo depressão,
e descrevia sintomas que são conhecidos de todos quantos viram ou sentiram
depressões – sintomas que anteriormente não eram classificados como vício.
O Pároco
de Chaucer descreve-a como uma coisa que «priva o pecador de procurar o bem. A acedia é inimiga do homem porque é
hostil à indústria de qualquer tipo, e é também uma grande inimiga da forma
como o corpo vive, pois não faz provisões para as necessidades temporais, e
inclusivamente gasta, esbanja, arruína todos os bens terrenos por negligência.
Faz como que os vivos se tornem semelhantes aos que já sofrem as penas do
inferno. Torna os homens choramingas e cobardes.» Esta passagem continua,
tornando-se, a cada frase, mais desagradável e crítica.
A acedia
é um pecado compósito, cujos elementos o Pároco enumera. «É tão terna e
delicada, como diz Salomão, que não suporta qualquer dificuldade ou penitência.
A fuga às obrigações leva o homem a recear qualquer tipo de trabalho.
O desespero, uma perda de esperança
na misericórdia de Deus, advém de um remorso irracional e por vezes de um
receio excessivo, o que leva o pecador a imaginar que pecou tanto que de nada
lhe valerá arrepender-se.
E se persiste até aos últimos
momentos de vida de um homem, entre na categoria de pecados contra o Espírito
Santo. Vem depois a preguiça letárgica, que torna um homem indolente de corpo e
de alma. Por fim vem o pecado de cansaço do mundo, chamado tristeza, que produz
tanto a morte da alma como do corpo.
Devido a ela, o homem torna-se
incapaz de suportar a sua própria vida. Assim, a vida do homem cessa antes que,
de forma natural, o fim da sua vida tenha de facto chegado.»
Os monges são particularmente
atreitos a sofrerem de acedia, que no
caso deles se manifesta por exaustão, apatia, tristeza ou desalento, agitação,
aversão à cela e à vida ascética, com saudades da família e da vida que levavam
antes.
A acedia
distinguia-se da tristeza (tristia),
que conduz um homem de novo a Deus e ao arrependimento. As fontes medievais não
são claras acerca do papel que a vontade aqui desempenha. Deixarmo-nos arrastar
pela acedia seria um pecado? Ou seria acedia uma punição para quem cometeu
outro tipo de pecado?
Os seus mais apaixonados oponentes
colocam-na ao mesmo nível que o pecado original; a eloquente monja beneditina
Hildegarda de Bingen escreveu: «No momento em que Adão desobedeceu à lei
divina, nesse exacto momento a melancolia instalou-se no seu sangue».
Na idade média, a ordem era de certo
modo precária, pelo que a desordem da mente era particularmente assustadora
para a sensibilidade medieval.
Quando a razão se danificava, todo o
mecanismo humano se desmoronava, e a ordem social desintegrava-se. A loucura
era um pecado, e a doença mental era um pecado bem mais grave. Um homem tinha
de utilizar a razão para optar pela virtude. Sem ela, não tinha autocontrolo
suficiente para fazer tal escolha.
A psique, como era entendida pelos
eruditos clássicos, não podia desligar-se do corpo; a alma, como era entendida
pelos cristãos medievais, quase era coincidente com o corpo.
Foi desta tradição que surgiu o
estigma ainda ligado à depressão nos nossos dias. A alma, sendo uma dádiva
divina, tem de ser perfeita; devemos lutar para manter a sua perfeição, e as
imperfeições são a fonte principal da vergonha nas sociedades modernas. A
desonestidade, a crueldade, a ganância, o egoísmo e erros de julgamento são
imperfeições da alma, por isso tentamos automaticamente suprimi-las. Enquanto a
depressão estiver no grupo de «aflição da alma», parece-nos ser regugnante.
Páginas 346-348
(…)
«A mais recente ciência da depressão
ecoa a sugestão de Hipócrates de que a depressão é uma doença do cérebro que
pode ser tratada com remédios orais; os cientistas do século XXI estão mais
aptos a formular remédios do que o estavam os do século V a.c., mas as
percepções básicas fecharam o círculo. As teorias sociais, entretanto,
conformaram-se a um modo aristotélico de pensamento, apesar do desenvolvimento
de formas específicas de psicoterapia mais sofisticadas do que os seus
distantes antecessores. O que é mais desolador é que estas duas formas de
conhecimento continuam ainda a ser discutidas, como se a verdade se situasse
noutro local e não entre elas.»
Página394.
(…)
