terça-feira, 2 de julho de 2019

O demónio do meio dia




Leitura de Junho de 2019:





No século V, Cassiano escreve acerca do «sexto combate» ao «cansaço e tristeza no coração», dizendo que «isto é o “demónio do meio-dia”, referido no Salmo Noventa», que «produz o desagrado do local onde estamos, desdém e desprazo pelos outros homens e uma forma de apatia.»

A seção em questão ocorre nos Salmos e seria traduzido literalmente da Vulgata: «A sua verdade envolver-te-á como um escudo/Não temerás o terror da noite,/nem o flagelo nem o demónio do meio-dia» - «ab incursu, et daemonio meridiano».

Cassiano presume que «o terror da noite» se refere ao mal; a «seta que voa de dia», às carnificinas feitas pelos seres humanos; «a peste que alastra nas trevas», a espíritos malignos que vêm durante o sono; «o flagelo», à possessão; «o demónio do meio-dia», à melancolia, aquilo que podemos ver claramente na fase mais iluminada do dia mas que no entanto vem arrancar da nossa alma o amor de Deus.

Outros pecados podem corroer a noite, mas este consome dia e noite. O que podemos dizer em favor de um homem desprotegido do escudo da verdade de Deus? O castigo pode ser eficaz na redenção de um caso tão desesperado: Cassiano defendia que um homem melancólico pode desempenhar um trabalho manual, e todos os seus amigos devem afastar-se dele e abandoná-lo.

Evárgio, utilizando a mesma frase, dizia que o desânimo melancólico era um «demónio do meio-dia» que atacava e tentava o ascético; considerava-o uma das oito principais tentações a que devemos resistir na Terra.

Utilizei aquela expressão para título deste livro porque descreve com grande exactidão o que experimentamos durante uma depressão.

A imagem serve para conjurar o terrível sentimento de invasão que acompanha as dificuldades do depressivo. Há qualquer coisa de afrontoso na depressão.

A maioria dos demónios – a maioria das formas de angústia – atua a coberto da noite; vê-los com clareza é derrota-los.

A depressão apresenta-se em plena luz do Sol, e o facto de ser reconhecida não representa para ela um desafio.

Podemos saber todos os quês e porquês e mesmo assim sofrer da mesma forma que sofremos quando somos dominados pela ignorância. Praticamente não há nenhum outro estado mental de que se possa dizer o mesmo.

Na época da Inquisição, no século XIII, alguns depressivos eram multados ou aprisionados devido ao seu pecado.

Nesse período, Tomás de Aquino, cuja teoria de corpo e alma colocava a alma hierarquicamente acima do corpo, concluía que a alma não podia estar sujeita às doenças do corpo.

Mas atendendo a que alma está abaixo do divino, estava sujeita à intervenção de Deus ou do Demónio. Nesse contexto, uma doença tinha de ser do corpo ou da alma, e a melancolia estava atribuída a alma.

A Igreja medieval definia nove pecados mortais (foram depois reduzidos para sete). Entre eles estava a acedia (traduzido como «preguiça» no século XIII).

O termo parece ter sido usado de forma tão vasta quanto hoje em dia o termo depressão, e descrevia sintomas que são conhecidos de todos quantos viram ou sentiram depressões – sintomas que anteriormente não eram classificados como vício.

O Pároco de Chaucer descreve-a como uma coisa que «priva o pecador de procurar o bem. A acedia é inimiga do homem porque é hostil à indústria de qualquer tipo, e é também uma grande inimiga da forma como o corpo vive, pois não faz provisões para as necessidades temporais, e inclusivamente gasta, esbanja, arruína todos os bens terrenos por negligência. Faz como que os vivos se tornem semelhantes aos que já sofrem as penas do inferno. Torna os homens choramingas e cobardes.» Esta passagem continua, tornando-se, a cada frase, mais desagradável e crítica.

A acedia é um pecado compósito, cujos elementos o Pároco enumera. «É tão terna e delicada, como diz Salomão, que não suporta qualquer dificuldade ou penitência. A fuga às obrigações leva o homem a recear qualquer tipo de trabalho.

O desespero, uma perda de esperança na misericórdia de Deus, advém de um remorso irracional e por vezes de um receio excessivo, o que leva o pecador a imaginar que pecou tanto que de nada lhe valerá arrepender-se.

E se persiste até aos últimos momentos de vida de um homem, entre na categoria de pecados contra o Espírito Santo. Vem depois a preguiça letárgica, que torna um homem indolente de corpo e de alma. Por fim vem o pecado de cansaço do mundo, chamado tristeza, que produz tanto a morte da alma como do corpo.

Devido a ela, o homem torna-se incapaz de suportar a sua própria vida. Assim, a vida do homem cessa antes que, de forma natural, o fim da sua vida tenha de facto chegado.»

Os monges são particularmente atreitos a sofrerem de acedia, que no caso deles se manifesta por exaustão, apatia, tristeza ou desalento, agitação, aversão à cela e à vida ascética, com saudades da família e da vida que levavam antes.

A acedia distinguia-se da tristeza (tristia), que conduz um homem de novo a Deus e ao arrependimento. As fontes medievais não são claras acerca do papel que a vontade aqui desempenha. Deixarmo-nos arrastar pela acedia seria um pecado? Ou seria acedia uma punição para quem cometeu outro tipo de pecado?

Os seus mais apaixonados oponentes colocam-na ao mesmo nível que o pecado original; a eloquente monja beneditina Hildegarda de Bingen escreveu: «No momento em que Adão desobedeceu à lei divina, nesse exacto momento a melancolia instalou-se no seu sangue».

Na idade média, a ordem era de certo modo precária, pelo que a desordem da mente era particularmente assustadora para a sensibilidade medieval.
Quando a razão se danificava, todo o mecanismo humano se desmoronava, e a ordem social desintegrava-se. A loucura era um pecado, e a doença mental era um pecado bem mais grave. Um homem tinha de utilizar a razão para optar pela virtude. Sem ela, não tinha autocontrolo suficiente para fazer tal escolha.

A psique, como era entendida pelos eruditos clássicos, não podia desligar-se do corpo; a alma, como era entendida pelos cristãos medievais, quase era coincidente com o corpo.

Foi desta tradição que surgiu o estigma ainda ligado à depressão nos nossos dias. A alma, sendo uma dádiva divina, tem de ser perfeita; devemos lutar para manter a sua perfeição, e as imperfeições são a fonte principal da vergonha nas sociedades modernas. A desonestidade, a crueldade, a ganância, o egoísmo e erros de julgamento são imperfeições da alma, por isso tentamos automaticamente suprimi-las. Enquanto a depressão estiver no grupo de «aflição da alma», parece-nos ser regugnante.

Páginas 346-348
(…)

«A mais recente ciência da depressão ecoa a sugestão de Hipócrates de que a depressão é uma doença do cérebro que pode ser tratada com remédios orais; os cientistas do século XXI estão mais aptos a formular remédios do que o estavam os do século V a.c., mas as percepções básicas fecharam o círculo. As teorias sociais, entretanto, conformaram-se a um modo aristotélico de pensamento, apesar do desenvolvimento de formas específicas de psicoterapia mais sofisticadas do que os seus distantes antecessores. O que é mais desolador é que estas duas formas de conhecimento continuam ainda a ser discutidas, como se a verdade se situasse noutro local e não entre elas.»
Página394.
(…)

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